Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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2 de maio de 2011
13 de fevereiro de 2011
Com quantas palavras se faz um livro?
A língua portuguesa contém quantidade incerta de palavras. Alguns estudiosos calculam em 320.000 vocábulos, outros chegam a considerar mais de 400.000, incluindo aqueles que há séculos caíram em desuso. Já o Dicionário Houaiss possui cerca de 228.000 verbetes. Por sua vez, pesquisas indicam que uma pessoa com nível de instrução média possui cerca de 1500 palavras em seu vocabulário ativo, aquele utilizado no dia-a-dia. Só isso? Com essa quantidade de conhecimento fica praticamente impossível fazer conexões linguísticas e mesmo neurais suficientes para se elaborar um bom livro, ainda que de tamanho básico.
Por exemplo, a obra Tratado de Yôga (DeRose, Ed. Nobel), o maior compêndio de técnicas da história dessa filosofia, possui cerca de 970 páginas e 180.000 palavras – claro que contadas aqui sem considerar as repetições dos mesmos vocábulos. Mas haja conteúdo para escrever uma obra deste porte! Um livro de “apenas” 130 páginas, em tamanho padrão (16x23cm) costuma ter aproximadamente 30.000 palavras.
O que nos dá mais vocabulário, então, para superar essa enorme barreira? A leitura de qualidade. Tomando contato com novos textos, temas e estilos, ampliamos a quantidade de dados armazenados em nosso HD, que é o cérebro, essa máquina incrível cuja dimensão de habilidades de criação, imaginação e arquivamento na memória ainda hoje, em pleno século XXI, nos é desconhecida. Alguns bons exemplos de literatura prazerosa, nem sempre tão leve, mas muito dinâmica e enriquecedora, são as obras dos grandes autores brasileiros e de língua portuguesa, tais como José Saramago, Machado de Assis, Jorge Amado, DeRose (já aqui bastante recomendado), Rubem Fonseca, Clarice Lispector e tantos outros.
(Trecho do livro Mãos à obra, de Rodrigo De Bona)
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12 de fevereiro de 2011
I Café Literário do Método DeRose em Santa Catarina
Hoje vivenciamos um momento histórico! O primeiro encontro da Academia Catarinense de Letras do Método DeRose. Um projeto que está nascendo de um grupo de escritores e amantes da literatura, para discutir os caminhos da produção literária, as dificuldades e experiências de cada um.
Chamamos esse primeiro encontro de I Café Literário, pois nos reunimos também para apreciar um bom café, comidinhas deliciosas e, claro, um papo muito divertido. E o resultado foi fantástico! Saímos ainda mais motivados para ler e escrever, pesquisar, estudar, aprender cada vez mais sobre essa extraordinária língua portuguesa. E o resultado disso será degustado por todos os apreciadores da Nossa Cultura.
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Há quem prefira escrever um livro inteiro de uma só vez, isolando-se durante semanas sem ser incomodado. Outros escrevem um pouco por dia, com disciplina espartana, e conseguem concluir seus projetos dentro do prazo a que se propõem. E há a grande maioria, que escreve um pouco de cada e acaba não concluindo livro algum, pois lhes falta aquilo que chamamos de “acabativa”, um neologismo criado por Stephen Kanitz que designa a capacidade de efetivamente finalizar aquilo que se começa com tão louvável iniciativa.
Qualquer que venha a ser o seu estilo, seja disciplinado, escreva, estabeleça seus próprios prazos e cobre de si os resultados. Ou, se preferir, peça ajuda a um life style coach, alguém que lhe conduza pelos caminhos de uma filosofia saudável e dinâmica de vida, com mais disciplina, lucidez, auto-observação, aprimoramento pessoal constante e autoconhecimento.
Para escrever bem, leia muito. Se você não gosta de ler, não vai gostar de escrever. Pode até gostar, mas sentirá tanta dificuldade que não irá muito longe. E quanto mais conteúdo tiver, mais vastos e profundos serão os seus textos, maior amplitude de vocabulário você utilizará, evitando repetições de termos, e mais variedade de estruturação frasal obterá, fazendo com que seus textos sejam leves, fluidos e prazerosos ao leitor.
A leitura deve ser um passeio com os olhos e a mente pelas folhas, produzindo no leitor uma sensação similar à que se alcança quando se assiste a um filme, de certa forma passivo ao andamento do texto que se lhe apresenta, assimilando aquela quantidade imensa de informações, mas definitivamente participante do enredo, compartilhando percepções, ideias, insights, desejos, emoções, conhecimento.
Evidentemente o objetivo aqui é estimular a boa leitura, em especial da literatura reconhecida, que nos traz sabedoria, estilo, vocabulário, imaginação e prazer. O estudo de livros técnicos, conforme seja sua área de trabalho, demanda uma ressalva especial: não leia todos os livros que existem por aí, apenas por conterem tema correlato ao de seu interesse. Como diz DeRose, "resista heroicamente à tentação de ler qualquer coisa, só por tratar-se de alguma matéria supostamente semelhante. É melhor reler várias vezes um bom livro técnico a ler vários livros novos contraindicados".
Lembre-se que antes de se ter algum tipo de relação profissional com livros, não se descobre quão ruim é a maioria deles (George Orwell).
(Adaptado do livro Mãos à Obra - um guia prático para publicação de livros, de Rodrigo De Bona)
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