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30 de janeiro de 2012

A pedra em movimento

A pedra está sempre ali,
Imóvel, imutável, de per si.

Há séculos parece estar
Sempre no mesmo lugar,
Insensível, indissolúvel, inabalável.

Mas está em movimento
Com tamanha sutileza
Que os olhos não o veem
Mas o coração sente.

E se tocar com atenção,
Não do ouvido nem da mão
Mas da própri'alma,
Dá pra perceber o movimento,
Sutil e secular,
De uma pedra viva
A nos observar
Ao longo dos milênios,
Rindo desses seres
De vida tão fugaz.

A sutileza perene está na pedra
Muito mais que em nossa vida
Pois ela está cá e estará
Quando nós já não mais.
.

7 de setembro de 2011

Liberdade por lei, mas até a lei

O Dia da Independência do Brasil bem que poderia ser o Dia da Independência no Brasil.
Durante esse dia - que continuaria sendo feriado nacional - todas as pessoas poderiam ser livres para o que quisessem fazer. E isso seria instituído por lei!
Todos poderiam passear até onde ousassem chegar, comer o que lhes apetecesse ao paladar, do jeito que lhes aprouvesse e a seu bel prazer, bem vestidas ou não, sós ou em muitos. Poderíamos viver, amar, trabalhar ou vadiar, ler, ouvir, falar, curtir ao extremo.
Seria um verdadeiro dia da liberdade, não de um país, mas de uma nação, composta pelos seus indivíduos realmente livres, independentes, de corpo e mente, alma e coração.
Mas a liberdade não precisa de um dia oficial, tampouco de uma lei. Mesmo assim temos por lei este dia, e temos até nossa individualidade por lei estabelecida.
Então por que muitos de nós mesmo assim dela não usufruímos?
Sim, a lei nos dá liberdade, mas também no-la tira. Afinal, viver em sociedade é limitar sempre nossa liberdade à do outro.
Assim, saímos da seara da independência e adentramos a nebulosa temática gregária do ajustamento social.
Mas isso já é outro papo... talvez para um dia "útil"...
Aproveite seu feriado.
.

2 de maio de 2011

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

11 de fevereiro de 2011

A pedra em movimento


A pedra está ali,
Imóvel, imutável.

Há séculos parece estar
Sempre no mesmo lugar,
Insensível, indissolúvel, inabalável.

Mas está em movimento
Com tamanha sutileza
Que meus olhos não o veem
Mas o coração sente.

E se tocar com atenção,
Não do ouvido nem da mão
Mas da própri'alma,
Dá pra perceber o movimento,
Sutil e secular,
De uma pedra viva
A nos observar
Ao longo dos milênios,
Rindo desses seres
De vida tão fugaz.

A sutileza está na pedra
Muito mais que em nossa vida
Pois ela está e estará
Quando nós já não mais.

(Rodrigo De Bona - 6/9/2010)

19 de janeiro de 2011

Tudo gira no pesar do pensar


A velocidade do corpo
Não é capaz de acompanhar
A velocidade da mente.
E esta não consegue superar
A velocidade da alma.

Quando o corpo sofre,
Quando é a mente instável,
Quando a alma está doente,
Tudo parece girar.
Tudo fica devagar.
Tudo soa com pesar.
Na tristeza do pensar.

E o sofrimento é um.
Como o é corpo, mente e alma.

(Rodrigo De Bona - 30/08/2005)

13 de janeiro de 2011

Antes... nada mais.

Antes...
 
Devoção.
Dedicação.
Desajuste.
Decepção.
Desamparo.
Desperdício.
 
Desvairar.
Despedir.
Desvelar.
Desfazer.
 
Despido.
Despoluído.
Deposto.
Deportado.
 
Destemido.
Derrotado.
Decidido.
Desmentido.
Devorado.
Desalmado.
 
Depois...

Nada mais.
Nada sois.
 
(Rodrigo De Bona - 30/08/2005)

8 de janeiro de 2011

Poesias ao vento...

I. DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

II. DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

III. DA PREOCUPAÇÃO DE ESCREVER

Escrever... Mas por quê? Por vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça terá isto,
Se já se sabe tudo o que se vai dizer!...

IV. DAS BELAS FRASES

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas...
Como há pacovios bem vestidos.

V. DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis.., ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

VI. DO MAU ESTILO

Todo o bem, todo o mal que eles te dizem, nada
Seria, se soubessem expressá-lo...
O ataque de uma borboleta agrada
Mais que todos os beijos de um cavalo.

[Mario Quintana; Espelho Mágico, 1945]


3 de janeiro de 2011

Não se acostume com o que não o faz feliz

Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!
Fernando Pessoa

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